Notas Históricas
A origem do topónimo parece ser o latino Puteus-i, poço,
subterrâneo, masmorra ou cisterna, ou também o feminino Putea, poça,
cova, e materializa-se documentalmente na alta Idade Média (nas
Inquirições). Na explicação de António Carreira Coelho, in "A
Guarda", de 14-09-2001, à época e em tempo de crise significava o
imperioso e quase exclusivo suprimento de água por nascente natural
ou mesmo por captação para cisterna. Chantus-i, além de ter sido um
frequente nome romano que indicaria a propriedade, podia provir de
origem céltica ("kant") aplicada ao arco de ferro de uma roda de
madeira de carro de atrelagem, praticável por ferreiros.
Por sua vez, a aplicação do topónimo Columba (local mais provecto e
provável berço da povoação) é um bom e raro indício de apoio de
antiguidade; a conservação do "l" intervocálico, quando na Idade
Média se passou pela forma de Coumba>Coomba>Comba, vem em abono de
maior anterioridade e, talvez, nesta indecisão ou evolução, a dever
considerar-se reflectida no período antecedente ao nosso idioma. Por
outro lado fica provada a grande antiguidade de um culto local
(porque o topónimo deve-se à existência, no cume deste monte, da
ermida dedicada à Virgem Santa Comba e com ela o remoto povoamento
destes territórios, sendo de crer que este monte tivesse sido
remotamente castrejo, de boa defesa natural e que o culto aí
instituído houvesse sucedido a uma devoção pagã e Cantus como
cerimónia mágica e encantamento.
Outros nomes habitados da freguesia denotam, na aparência e na
aplicabilidade, idêntica origem e antiguidade. Incidamos, por
exemplo, em Cancelus e Sicarius, radicados na nossa língua. O termo
"cancelo" aqui aplicado a três povoados são sintomáticos de um único
e embrionário "Cancelo". Cancellus configura campos definidos e
vedados. "Cancelum" é mais uma das adaptações idiomáticas de
transição que, com certeza, provém de uma tal demarcação foreira de
terrenos. Ainda hoje a delimitação de um aprisco nocturno toma o
nome de "cancelas", tal como a vedação de uma propriedade (murada)
se designa cancela ou cancelinha. A acepção de Cancelo, ante ou
post-mediévica, era objectiva e restritiva - "extra cancellos non
egredi" - não ultrapassar os limites.
No primeiro período da monarquia, Poço do Canto e as suas aldeias
eram do julgado de Ranhados e não havia aí possessões ou honras de
nobres. O território desta freguesia depois de 1377 (Carta de 12 de
Julho de 1381) inscreve-se numa munificência do rei D. Fernando aos
pais de Pero Lourenço de Távora (notável fidalgo do século XIV de
quem procede a Casa dos Távoras, marqueses de Távora e condes de S.
João da Pesqueira) e a seu irmão Rui Lourenço, que neles continuou e
foi um dos mais acérrimos apoiantes de D. Fernando em todos os
momentos, mesmo nos mais difíceis.
O orago do Poço do Canto é Nossa Senhora do Pranto ou, na invocação
de mais ancestral devoção, Nossa Senhora das Dores. A Igreja
Paroquial é dos finais do século XVIII, nela sobressaindo a
artística talha dourada que reveste o arco que separa a nave da
capela-mor. O lavabo da sacristia, mandado reconstruir pelo
comendador de Ranhados, tem a data de 1794.
A antiga freguesia foi um curato anual de provimento do Comendador
de S. Martinho da vila de Ranhados, a cuja municipalidade pertencia.
Pouco depois autonomiza-se como abadia. No primeiro período da
monarquia ainda não existia a paróquia do Poço do Canto, nem sequer
no primeiro terço do Século XVI. Ao tempo, a paróquia de Ranhados
atravessava a Teja para a margem direita; posteriormente, com o
crescimento da população e pela grande distância a que estes povos
estavam da matriz de Ranhados, com a Teja de permeio, foi criada a
paróquia no lugar do Poço do Canto e a Ermida local passara a Igreja
de Santa Maria; a nova paróquia, filial daquela, ficou, por isso, a
ser provida pelo reitor de Ranhados.
Nesta freguesia há ainda as capelas da invocação de Santa Bárbara,
em Sequeiros, a capela de Santo Apolinário em Vale do Porco; a de
Nossa Senhora da Conceição, em Cancelos de Baixo, e a do Divino
Espírito Santo em Cancelos de Cima e do Meio. Contavam-se ainda,
como capelas particulares, uma dedicada a Jesus ,Maria e José, nos
Cancelos de Baixo e outra dedicada a Santo António.
No dia de Pentecostes cumpre-se na paróquia do Poço do Canto um
costume que deve remontar ao século XIV, período em que foi
incrementada em Portugal a devoção ao Espírito Santo: do alto da
torre da sua Igreja Matriz são lançados pequenos pães bentos que as
pessoas recolhem e levam para casa, como lembrança das línguas de
fogo que desceram no Cenáculo e símbolo da Caridade que deve ser
praticada por todos os cristãos.
Em 1758 o cura desta freguesia refere numa sua memória que esta
localidade "está situada em um altinho", dominante da Ribeira Teja.
Em 1708 a freguesia registava no seu aro 128 fogos e 496 habitantes;
em 1862 tinha 221 fogos e 871 habitantes; em 1900, tinha 307 fogos e
1192 habitantes; teve o seu ponto mais alto em 1940, com 404 fogos e
1355 habitantes, chegando a 1960 com 404 fogos e 1348 habitantes e
perdendo nos 20 anos seguintes cerca de 40% da sua população. Em
1981 tinha 349 fogos e 828 habitantes, numero este que baixou ainda
para 723 no censo populacional de 1991.
No adro do Poço do Canto podem-se apreciar algumas construções de
interesse, como a Casa do Cônsul e a Casa de D. Alda. Nos Cancelos
de Baixo somos surpreendidos por um belo solar barroco do Século
XVIII onde se alojou Alexandre Herculano, em 1852, a convite do
então proprietário Caetano de Seixas (hoje do Dr. José Lopes
Cavalheiro).
Nesta freguesia produz-se um excelente vinho de consumo (tipo
palhete, muito aromático, gasoso e bem apaladado, muito procurado e
apreciado), assim como azeite de excelente qualidade, que constituem
a riqueza e fonte de receita dos seus habitantes. Aui existe ainda
um pequena industria ligada á moagem de cereais. Os antigos
castanheiros, que em tempos remotos cobriam as suas terras de
soutos, foram sendo substituídos pelos vinhedos que hoje são o seu
orgulho e o seu ganha-pão, daqui saindo anualmente muitas pipas de
vinho da mais alta qualidade, designadamente para a cidade do Porto.
Bibliografia:
Coelho, António Carreira - "As nossas terras" - Jornal "A Guarda" de
14-09-2001, pag. 14;
Rodrigues, Adriano Vasco - "Terras da Meda - Natureza e Cultura" -
1983;
Saraiva, Jorge António Lima - "O Concelho de Meda - 1838-1999" -
1999.
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