Notas
Históricas
Esta ridente
localidade da Coriscada andou numa roda viva durante a segunda
metade do século XIX, do ponto de vista administrativo. Com efeito,
pertenceu até 1855 ao antigo concelho de Marialva, que foi extinto
em 24 de Outubro daquele ano, passando nessa data para o concelho de
Vila Nova de Foz Côa. Porém, dezassete anos depois, por Decreto de
18 de Dezembro de 1872, foi anexada ao actual concelho da Meda. Em
1747 fazia parte da comarca de Pinhel, em 1839 da comarca de
Trancoso e desde 1852 passou a integrar a comarca da Meda.
A localidade não
constituiu sempre um principal núcleo urbano, na medida em que,
junto a si, vinham crescendo diversos pequenos povoados, como o Alto
da Pelada e da Boa Vista, Confrarias, Afife, Monte Negro, Quinta, o
Lugar da Coitada e a Quinta da Aldeia Rica.
A sua Igreja
Matriz, dedicada a Santo António, poderá ser de 1669. Revela
predomínio do barroco. Dependia porém, como curato, da abadia de
Marialva, que lhe dava provimento. No seu aro e como seu património
edificado destaca-se a Capela do Divino Senhor da Boa Esperança,
onde no 1º de Setembro se faz uma romaria anual, e, não muito longe
dali, a vistosa ermida de Santa Bárbara.
A origem do seu
nome deve provir de "coriscos" (centelhas sem descarga ou
tonitroação) que fendem as nuvens e podem deslocar-se entre si nas
alturas, para nivelamento de tensões vizinhas e são
meteorologicamente um tanto diferentes dos relâmpagos (descarga
entre a nuvem e a terra). Estes, ao ferir as diferentes
estratificações da atmosfera, fulguram-na e tonitroam os ares no
percurso, descarregando o descomunal potencial eléctrico
especialmente nos pontos mais altos ou de melhor condutibilidade no
momento, onde, na diferente polaridade que o solicita, joga a
velocidade da luz e a da propagação do som. Temem-se os trovões, mas
é bom ouvi-los, porque é sinal de que a faísca não nos fulminou.
"Tempus coruscat, lingas ne coruscant", isto é, quando relampeja ou
troveja, cá por baixo não se dizem afoitos "raios e coriscos" nesses
dias, a significar a diferente entre o fulminante das palavras que
voam irrevogáveis e o que a sisudez recomenda através do sobrecéu da
entoação vocal.
Na Coriscada a
tradição associa, de facto, o topónimo às fortes trovoadas (com
raios e coriscos) que parecem recrudescer, "habitualmente"
descomunais, no local, e sobretudo no alto polarizante do Monte de
Santa Bárbara e na Nateira, área onde a freguesia conta com a sua
mais densa região mineira desde o sítio do Gravato e da Cornelha até
às Minas da Quinta da Coitada. A abundância na região de actinolitos
(raio + pedra, pedras de raio), ou como tal considerados, que possam
corresponder ou ter sido aproveitados como rudimentares instrumentos
polidos, com possível datação neolítica - machados de amfibolite -
ligados também a um certo culto - vêem testificar a importante
encruzilhada populacional na história, desde as mais recuadas eras.
No sopé do monte
da Ermida de Santa Bárbara, a Fonte da Zarelha, aparentando uma
traça barroca, e, possívelmente, a par de outros edifícios da
localidade, admitidos no século XVI, é uma histórica Fonte de Amores
que terá ressurgido num local de Fontanálias (o culto romano em
redor das Fontes). Aqui, no sítio de S. Pedro, tendo para Sul o
ponto mais dominante da Nateira, terá sido a origem da povoação, ou,
simplesmente, um ponto crucial de vigilância dos acessos, provindos
das margens do Massueime. Com origem no castro de Santa Bárbara, a
Coriscada constituía o último reduto defensivo antes do castelo de
Marialva. Por sobre este castro, a cerca de 500 metros de altitude,
foi erigida a capela de Santa Bárbara, cujo culto se desenvolveu
mais significativamente nos finais do século XV.
A Coriscada teve
foral concedido por D. Sancho I em 30 de Julho de 1196, poucos
vestígios restando da sua antiga vida municipal. Destaque-se, no
entanto, a recente placa toponímica que, em memória, assinala a
existência do que outrora foi o importante "Largo do Concelho".
Podem ser
admirados na Coriscada alguns interessante solares. Antes de mais, o
solar dos Menezes, de provável edificação na transição dos séculos
XVI-XVII, no qual se apresenta uma impressionante chaminé, que pelo
seu tamanho se torna observável. Outro solar digno de destaque é o
dos Viscondes da Coriscada, igualmente barroco, e que foi residência
do importante industrial Francisco Joaquim da Silva Campos de Melo
(nascido em 05-01-1824 e falecido em 13-05-1876) e a quem o Rei D.
Luís agraciou com o título de 1º Visconde. Este importante
industrial foi um grande proprietário na Covilhã e grossista na
mesma cidade, bem como membro do Conselho Real, tendo casado com D.
Maria da Luz Silva Campos Melo e, falecida esta, com D. Carolina
Eugénia da Silva Campos, filha de José Maria Campos e Melo, que
frequentou uma escola técnica de lanifícios na Bélgica e na França e
veio a fixar-se na Covilhã, cidade cuja denominação da Escola
Industrial ainda hoje relembra o notável empresário que a fundou.
Em termos
demográficos a Coriscada é mais um exemplo das terras do interior
ameaçado pela desertificação. O seu pico mais alto, no que respeita
a habitantes, verificou-se em 1950 (com 776), mas bem depressa se
aproximou dos valores de 1708 (apenas 206), com a sangria da
emigração (297 em 1991...). Quanto ao número de fogos, tem hoje o
triplo que tinha em 1708 (267 em 1981 e 70 em 1708). Numa luta que
vem de longe pelo crescente progresso da sua terra, os naturais da
Coriscada são pessoas determinadas e vêm procurando melhorar a sua
freguesia, equipando-a louvavelmente. A par disso, vêm-na também
promovendo com a oferta dos seus inegáveis valores culturais e algum
dinâmico turismo de habitação, a par da aquisição recente de
interessantes equipamentos sociais e de iniciativas que mostram bem
a criatividade dos seus filhos, os quais vêm ressuscitando não
apenas o seu histórico mercado ou feira mensal (nas primeiras
segundas-feiras do mês), ou um artesanato que vai surpreendendo quem
o aprecia, mas também todo um "saber de sabores" das especialidades
e pratos tradicionais de que é privilegiada toda a Beira.
Sobre esta
freguesia, pode ler-se uma interessante monografia do falecido Dr.
Amílcar Simão Saraiva, daqui natural, "Coriscada - Memórias da minha
Terra", edição de autor - 1995.
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